Quando a realidade ainda dói décadas depois
Existem livros que a gente termina e simplesmente fecha a última página. Existem outros que continuam abertos dentro da nossa cabeça por muito tempo depois. Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, foi um desses para mim.
Publicado originalmente em 1960, o livro reúne trechos do diário que Carolina escreveu enquanto vivia na favela do Canindé, em São Paulo, registrando o cotidiano, a fome, as dificuldades para sustentar os filhos, as relações com os vizinhos, seus amores, suas frustrações e também o seu desejo de escrever e ler.
E talvez justamente por ser um diário, sem a pretensão de transformar tudo em uma narrativa perfeitamente organizada, a leitura tenha me atingido tanto.
Mas vamos começar pelo começo?
Antes de abrir o livro...
📖 Livro: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada
✍️ Autora: Carolina Maria de Jesus
🌏 País: Brasil
📚 Gênero literário: Diário / literatura autobiográfica
🏢 Editora: Ática
📦 Formato: E-book (Kindle)
🔢 ISBN: 9788508171279
📄 Páginas: 200
🎯 Tema central: A vida de uma mulher negra e mãe solo em situação de extrema pobreza, narrada a partir de seu próprio cotidiano
💭 O que esperar: Um relato intenso sobre fome, pobreza, maternidade, desigualdade, relações humanas, leitura e escrita
⭐ Minha avaliação: 5/5
Um diário que não parece tão distante quanto deveria
Uma das coisas que mais me marcou em Quarto de Despejo foi justamente a sensação de que estou lendo algo que aconteceu há muitas décadas, mas que não pertence completamente ao passado. E isso me deixou de coração partido.
Porque quantas décadas se passaram desde que Carolina escreveu aquelas páginas? Muitas.
Mas a realidade que ela registra ainda existe.
Quanta gente ainda vive na miséria? Quantas famílias precisam escolher como usar um dinheiro que mal é suficiente para sobreviver? Quantas pessoas passam fome enquanto tentam garantir que os próprios filhos tenham alguma coisa para comer?
E quantas mulheres ainda precisam lutar praticamente sozinhas para garantir o sustento dos filhos? Quantas precisam correr atrás de pensão alimentícia enquanto o pai das crianças simplesmente não cumpre a própria responsabilidade?
Ler Carolina é, portanto, olhar para uma realidade histórica, mas também perceber que algumas das questões que atravessavam seus dias continuam fazendo parte da vida de muitas pessoas. E isso é doloroso.
Carolina me colocou dentro da cabeça dela
Uma coisa que achei muito interessante durante a leitura foi perceber como Carolina consegue nos aproximar dos próprios pensamentos.
Não existe uma preocupação em transformar o diário em uma narrativa literária convencional. Ela escreve sobre o que vive, sente e pensa. E justamente por isso a leitura é tão intensa.
A ortografia não é perfeita.
E, sinceramente? Para mim, isso é um detalhe muito pequeno diante da força do que está sendo contado.
Mais do que enxergar os erros, eu enxerguei uma mulher escrevendo.
Uma mulher que vivia em situação de extrema pobreza, mas que era culta à sua maneira, tinha consciência do mundo ao seu redor, observava as pessoas, refletia sobre o que acontecia e tinha uma relação muito forte com as palavras.
A escrita de Carolina tem personalidade.
Ela não precisa escrever dentro de um padrão considerado perfeito para conseguir transmitir indignação, tristeza, esperança, raiva, carinho, cansaço ou até mesmo ironia.
Você entende o que ela está sentindo.
E isso, para mim, é uma das grandes forças de Quarto de Despejo.
Ler e escrever também eram formas de sobreviver
Talvez uma das coisas que mais me encantaram em Carolina tenha sido justamente o amor dela pelos livros.
Em meio a uma rotina marcada pela necessidade de conseguir dinheiro, comida e condições mínimas para cuidar dos filhos, ela encontrava espaço para ler sempre que podia.
E também escrevia. Muito.
A escrita parecia ser uma maneira de organizar aquilo que estava dentro dela e, ao mesmo tempo, atravessar os dias difíceis. Isso me tocou bastante, porque Carolina não tinha apenas histórias para contar. Ela tinha uma necessidade de contá-las. É por isso que seu diário consiga ser tão íntimo. Ela não está simplesmente relatando acontecimentos. Está registrando a própria existência.
Dias repetitivos, mas nunca iguais
Outra coisa que me chamou atenção foi como Carolina conseguiu me prender justamente em uma rotina que, à primeira vista, poderia parecer repetitiva.
Ela acorda.
Procura comida.
Tenta conseguir dinheiro.
Cuida dos filhos.
Lida com os vizinhos.
Observa acontecimentos da favela.
Volta para casa.
Escreve.
No dia seguinte, tudo começa novamente.
Mas nunca é exatamente o mesmo dia.
Cada página traz uma nova preocupação, uma nova frustração, uma nova pequena alegria ou alguma situação que faz Carolina refletir sobre a própria vida e sobre as pessoas ao redor.
E isso fez com que eu ficasse presa à história dela.
Eu queria saber o que aconteceria no dia seguinte, mesmo sabendo que provavelmente haveria mais dificuldades.
Até os amores que Carolina vive durante o período retratado aparecem carregados dessa intensidade que atravessa o livro.
Porque ela não deixa de ser mulher, de sentir desejo, de se apaixonar, de se decepcionar ou de querer companhia simplesmente porque está tentando sobreviver.
Ela continua vivendo.
E então veio uma identificação que eu não esperava
Eu também fiquei pensando bastante sobre as frases de Carolina que me tocaram.
Eu não sou uma mulher negra. Não sou mãe solo. E nunca vivi no limite da miséria como ela viveu.
As nossas experiências são muito diferentes, e acho importante reconhecer isso.
Mas algumas coisas que Carolina escreve atravessaram essas diferenças. Algumas frases me fizeram pensar: eu entendo isso. E isso me parece muito significativo, porque, apesar de todas as diferenças de contexto, existem sentimentos que continuam sendo humanos. A frustração. A solidão. O desejo de ser compreendida. A vontade de ter uma vida melhor. A necessidade de encontrar algum sentido em meio a dias difíceis. A esperança de que amanhã seja diferente.
Carolina viveu uma realidade muito distante da minha, mas conseguiu colocar em palavras sentimentos que também podem encontrar eco em quem está do outro lado da página.
Essa é uma das maiores forças da literatura: ela permite que a gente entre, por algumas horas, em uma vida que não é a nossa e enxergue o mundo por outro ponto de vista.
Quarto de Despejo é sobre pobreza, mas não somente sobre pobreza
Seria muito fácil resumir o livro como “um diário sobre a pobreza”.
Mas acho que isso diminuiria muito a obra.
Quarto de Despejo também é sobre maternidade, relações humanas, desigualdade, racismo, fome, sonhos, frustrações, leitura, escrita, amor e sobre a tentativa de preservar a própria humanidade quando a vida parece determinada a reduzi-la à sobrevivência.
Carolina observa.
Carolina sente.
Carolina critica.
Carolina ama.
Carolina se irrita.
Carolina lê.
Carolina escreve.
Carolina sonha.
É por isso que ela não aparece para mim apenas como alguém que viveu em situação de pobreza. Ela aparece como uma mulher com uma voz própria, uma inteligência própria e uma percepção muito particular sobre o mundo.
Minha conclusão
Quarto de Despejo foi uma leitura que me deixou com o coração apertado.
Não porque seja um livro ruim ou difícil de ler no sentido de ser desagradável. Muito pelo contrário. A escrita de Carolina me prendeu e fez com que eu quisesse continuar acompanhando aqueles dias.
O difícil é perceber que, por trás das páginas, existe uma realidade que não deveria precisar ser lembrada dessa maneira décadas depois.
Carolina escreveu para registrar a própria vida e acabou registrando também uma parte da história do Brasil que envolve fome, pobreza, desigualdade e abandono, mas que também envolve uma mulher que encontrou nos livros e nas palavras uma maneira de continuar sendo ela mesma.
Terminei Quarto de Despejo pensando em Carolina, nos filhos dela e em tantas outras pessoas que viveram ou ainda vivem situações parecidas. E, principalmente, pensando em como algumas histórias precisam continuar sendo lidas, não para que a gente olhe para elas apenas como retratos de um passado distante, mas para que perceba aquilo que ainda está diante dos nossos olhos.
Se você ainda não leu Quarto de Despejo, fica aqui a minha recomendação para colocar essa obra na sua lista. É uma leitura que pode doer, incomodar e fazer pensar. E é exatamente por isso que ela é tão necessária.
🛒 Quer comprar o livro?
Se você quiser conhecer a obra de Carolina Maria de Jesus, pode comprar Quarto de Despejo pelos links abaixo:
👉 Compre pela Amazon: https://link.amazon/B0fAYQ6OY
👉 Compre pelo Mercado Livre: https://meli.la/2SreRJz
👉 Compre pela Shopee: https://s.shopee.com.br/8fSVtF0Fws
Ao comprar pelos meus links de afiliada, você ajuda a manter a Hospedaria de Palavras funcionando e ainda coloca esse livro na sua estante. ❤️









0 Comentários